O Jardim das Aflições: filme sobre Olavo ou filosofia?

Fui convidado para assistir ao filme na pré-estreia por amigos que são amigos do diretor Josias Teófilo. Fui ver o filme com certo ar de desconfiança, esperando algo típico de vários documentários brasileiros: o endeusamento do entrevistado, a falta de contradições internas e dinâmicas que o personagem/entrevistado pode oferecer. Qualquer vida é digna de um documentário, desde que este seja dinâmico e diverso, e não uma visão unilateral de grandes feitos ou prêmios. Me surpreendi com o caráter contemplativo e aberto do filme, não é uma obra disposta a defender ou enaltecer Olavo de Carvalho, simplesmente mostra seu pensamento, de forma elegante, inclusive. Não se espera de Olavo, após ver seus vídeos de extremismo e superficialidade no Youtube, uma figura tão erudita e bem articulada com suas referências. O que fica perceptível logo de cara é que ele atua em seus vídeos, busca chamar a atenção de maneira brusca, pois assim capta a efêmera curiosidade dos incautos e incultos. Parece ser estratégia de marketing, e nota-se que funciona muito bem. Olavo, como é mostrado no filme, detém alta erudição e capacidade filosófica aguçada. Claro que passa por vexames e alguns absurdos em sua carapaça enquanto youtuber, mas se vermos a fundo os seus pensamentos, veremos algo interessante.

Por si só, o livro, que também é o título do filme – O Jardim das Aflições possui uma ideia bastante interessante: como o jardim de Epicuro, o lar da felicidade como finalidade, torna-se um jardim de aflições, onde a finalidade é o perpétuo conflito? Filosoficamente talvez não seja nenhuma novidade, mas historicamente e literariamente é bastante rico. Algo que Olavo diz em depoimento no filme chama a atenção. Expressa que não importa a ideia própria, se a ideia é propriedade original de um indivíduo, o importante é percorrer uma ideia verdadeira, algo que se sustente para a consciência individual. Percebe-se uma grande semelhança com a filosofia do indivíduo de Kierkegaard, que critica o espírito absoluto de Hegel, sua tentativa de sistematizar e explicar toda a história em uma linha linear, dar sentidos à história. Kierkegaard simplesmente diz que esse sistema não contempla as angústias do indivíduo, seus problemas, seu desespero, e é isso o que mais importa, não a abstração explicativa, mas a concretude inexplicável, para além de formalismos. Olavo, de certa forma, encontrou sua ideia verdadeira em uma filosofia de cunho existencial, metafísico, mostrando grande apreço por Platão e Aristóteles. Ele provavelmente não se designa dentro de uma vertente filosófica, mas muito se aproxima dos existencialistas e dos filósofos da vida, falando, inclusive, várias vezes sobre Ortega y Gasset.

Acredito que muitos fãs do Olavo exposto pelo youtube irão se decepcionar, pois não é um filme de gritaria ou críticas unilaterais, está mais preocupado em mostrar sua filosofia ou pensamento como um jardim, um universo aberto para as diversas luzes que emanam do sol. Quando ele fala sobre o Partido dos Trabalhadores, por exemplo, parece até o defender, estar convicto de suas boas ideias, de sua ampla possibilidade de sucesso, mas argumenta que o mesmo virou uma elite, pois tentou ocupar a cultura como um todo. Concordando ou não com os ditos de Olavo, o que ele diz no filme é bastante lúcido, não há aquela figura jocosa e extremista, como é amplamente conhecido. O jardim de Olavo é marcado também pela morte como finalidade, assegura-se dentro deste fato, que é um dos poucos fatos da empiria. Epicuro dizia: “A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais.”, de tal modo, não vivia aflito em direção à morte, mas convicto de seu caráter vertido ao nada, de maneira não amedrontadora.  Olavo argumenta que cada momento, ao passo que é contingente, também é necessário, pois se eterniza. O que é ser não deixa de ser, pois já o foi e assim será para sempre. A morte não elimina as identidades, somente o corpo. O indivíduo persiste, por toda a eternidade, rumo ao infinito. Novamente se assemelha com Kierkegaard, que diz que os feitos e minúcias do indivíduo, os detalhes, são maiores que o universo, pois só vivemos uma vez, o universo parece infinito e interminável. Por termos esse caráter finito, somos muito mais importantes, algo que se deve ser visto atentamente. Para Kierkegaard, o ser humano vive entre a finitude e a infinitude, o primeiro marcado pela morte e o segundo pela vida eterna em Cristo. Quando apenas uma via dessas acontece, entramos em desespero, pois o feito de uma nos faz pensar nas possibilidades da outra, e essa possibilidade nos angustia, nos faz entrar em desespero. Olavo caracteriza sua diferença em relação a Kierkegaard ao dizer que se assegura somente nos fatos. Assume, por exemplo, que a ressurreição de Cristo é um fato, e não uma possibilidade. Sendo assim, parece não sofrer grandes angústias.

Achei deveras interessante quando Olavo diz não saber se tem religião. Espera-se que seja alguém bastante ortodoxo, mas não o parece. Diz acreditar somente nos fatos, e assim assume o catolicismo como uma verdade demonstrável, dizendo haver demonstrações históricas. Se historicamente ele está correto ou incorreto, não importa, mas isso mostra certa flexibilidade de pensamento, uma pessoa aberta aos vários conhecimentos. Há uma cena até engraçada, onde Olavo mostra sua vasta coleção de obras de autores comunistas, tendo, por exemplo, as obras completas de Stalin e Lenin. Como leitor dos livros, pelo menos os critica com a consciência tranquila de que leu sobre o conteúdo. Apesar de algumas gafes e dizeres absurdos, Olavo não é uma figura ignorante, sua verdadeira face é bastante fascinante, ainda mais por não ter formação acadêmica que, aliás, é ferrenho crítico. Poucos se lembram, mas a filosofia moderna surgiu fora das universidades, fato basilar e cabal de que a academia não é a totalidade do bom e original pensamento.

Como documentário, é muito bem realizado, não é um filme de homenagem ou de puxa-saquismo, simplesmente expõe o pensamento de Olavo, isso muito bem dialogado com as cenas de momentos mais íntimos de Olavo, com sua família. O filme captura o espectador pelas belas imagens e lucidez do que está sendo dito, além da aproximação que temos com a pessoa de Olavo. Talvez possa-se argumentar que faltou ao filme mostrar também o lado negativo do personagem, entrevistar pessoas que não gostam dele. Acredito, porém, que o filme está muito mais focado na filosofia, no pensamento e na análise. O Jardim das Aflições é dividido em três partes, que basicamente focam nos recortes sobre política, o ser no cosmos, conhecimento e filosofia. A cena mais marcante para mim foi quando Olavo tecia sua crítica ao sistema político brasileiro e um drone filmava a esplanada dos ministérios de Brasília, onde o pequeno jardim, a grama que reside entre os ministérios, se encontra completamente cercado pelos prédios e, além disso, dividido por um pequeno muro improvisado que fizeram para dividir os manifestantes de ideologias diferentes, nas vésperas de um protesto. Esse é o jardim das aflições, o bios desvanecido pelos jardins de concreto, a vida que é aparada em uma manhã de todo mês para que não se misture ao impositivo poder. Olavo bem coloca que os livros condensam a realidade, enquanto a vida é confusa e obscura, os livros organizam essa perpétua desordem em uma lógica. O papel da filosofia, para ele, é organizar, ver com mais clareza, articular os conceitos e assim enxergar a realidade, ver como os fatos se sucedem, a totalidade do universo, o jardim.

Ao dizer que o filósofo deve acreditar naquilo que diz já não concordo, pois posso muito bem especular sobre mundos possíveis e não ter crença. O ceticismo é uma posição notadamente filosófica, com vastas implicações na lógica, filosofia da mente, metafísica e etc. Achei interessante quando analisa que sempre há uma classe que se julga como “o povo” e todo o resto do país é “elite”. Há claramente, segundo ele, um egoísmo ideológico, uma visão totalmente ilusória. Nesse sentido, como bem analisa Karl Löwith em sua magnum opus O Sentido da História, a filosofia de Marx se calca no cristianismo, no fim das contas, de modo secularizado. É a mesma mensagem messiânica de que há “um povo escolhido que deve conquistar aquilo que é seu por direito”. No fundo, o que vemos no livro, é que a religião está por aí em toda parte, não adianta tentar fingir que ela não existe ou que é completamente inconsistente. Não importa seu valor de verdade, mas suas implicações antropológicas e sociológicas. Olavo, ao dizer que na Virgínia, lugar onde mora atualmente, tem profunda consciência de como as coisas são por lá, enaltece a tradição e a preservação da memória. Afinal, como dizia Agostinho, “O passado é o presente da memória”.

Quando Olavo diz que a política toma o lugar da religião, sendo ela o cerne que dita a religiosidade, lembra muito Feuerbach em A Essência do Cristianismo, ao dizer que a política é a religião secularizada, a conduta, o certo e o errado não vem mais da esfera individual, mas de um terceiro que cria leis justamente porque os seres humanos são o contrário delas. Sua crítica política é generalizada, diz, por exemplo, que tirar a Dilma foi simplesmente um ato simbólico, pois o verdadeiro problema está difundido por toda a classe política. Diz também que, a direita estando no poder, a vê de modo crítico, se for esquerda, também assim vê, simplesmente pelo fato de haver poder em jogo, e isso é capaz de corromper qualquer um. São questões antigas, há muito ditas e pensadas, não há nada de inovador no que Olavo diz, mas o filme é capaz de oferecer catarse e admiração pela honestidade e erudição do pensador, e também pelo caráter não apelativo da obra, é bem orgânica, subsumida pela bela sinfonia de Sibelius. Impressiona também pela qualidade técnica e narrativa, e isso com muito pouco dinheiro. O diretor se mostra maduro e seguro na forma documental, que é seu primeiro longa-metragem.

A obra se mostra erudita em relação ao próprio cinema. Coloca em questão excertos de Ivan, o Terrível de Eisenstein, Aurora, de Murnau, No Tempo das Diligências, de John Ford e Limite, de Mário Peixoto. Sobre Eisenstein, talvez a figura mais complexa quando pensamos em cinema de Estado, pois era tão inventivo que foi tolhido, o filme faz montagem comparativa: quando Olavo analisa o Estado e a monstruosidade que pode atingir, vemos Ivan, o Terrível. A genialidade de Eisenstein deu a ele as propriedades para driblar a censura e a superficialidade. Aurora parece ser o filme favorito de Olavo, vemos uma cena em que ele parece se emocionar com um dos momentos mais marcantes do filme. Sobre John Ford e os westerns, faz questão de enfatizar que o faroeste não é sobre a natureza, mas sobre indivíduos que seguem certa conduta moral. Diz respeito ao indivíduo que deve cumprir uma promessa, salvar amigos ou mesmo enriquecer a qualquer custo. Soa um tanto superficial, visto que a paisagem no faroeste é importantíssima e até definitória para a narrativa, prova disso é o livro editado por Deborah A Carmichael, The Landscape of Hollywood Westerns: Ecocriticism in an American Film Genre.

O filme passa rápido, é capaz de divertir e ensinar àqueles que tomam indivíduos como exemplos. A montagem é sóbria e o filme conquista pela simplicidade, o entrevistado parece não estar preocupado com a originalidade, mas sim com a relevância dos ditos para cada indivíduo. Quanto a censura que o filme sofreu, é absolutamente ridículo, sequer assistiram ao filme e já o condenaram. Não há doutrinação e nem tentativa de formar um público conservador, ao contrário, o pensador entrevistado tenta analisar os dois lados da mesma moeda. Sobre isso, termino pensando naquilo que Kierkegaard disse, que preferia muito mais falar com os ateus do que com os colegas da igreja, pois os primeiros ao menos tinham propriedade no dizer. Sendo Kierkegaard muito protestante, mostrou incrível flexibilidade. Por que não agir mais desse modo?

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